JOÃO JACINTOLenha

Exposição
6 Jul – 4 Ago 2018

Inauguração: 
Sexta-feira, 6 Julho 2018, 22:00

Entrada gratuita
 

Curadoria de Óscar Faria

Guloseima canibal

Óscar Faria

O atol de Fakarava situa-se na Polinésia Francesa, no arquipélago de Tuamotu. Trata-se de um banco de areia com cerca de 130 quilómetros de extensão, com palmeiras ao longo da costa. Este paraíso na terra – é Reserva Mundial da Biosfera, um estatuto atribuído pela UNESCO –, atravessa as “Graveyard stories”, escritas por Robert Louis Stevenson, em finais do século XIX, durante as suas viagens pelos Mares do Sul, realizadas para recuperar de problemas respiratórios. Num desses textos encontra-se a seguinte passagem: “Quando os vivos comem os mortos, a imaginação nocturna horrificada concebeu a inferência chocante que os mortos podem comer os vivos. Sem dúvida, eles matam homens, sem dúvida, mesmo, mutilam-nos por mera malícia. Os espíritos das Marquesas por vezes arrancam os olhos dos viajantes, mas mesmo isso pode ser mais prático do que parece, pois o olho é uma guloseima canibal.”

Esta “requintada expressão” não escapou a um outro autor, Georges Bataille. Na entrada dedicada ao “Olho”, que escreveu para o “Dicionário Crítico”, o escritor francês, depois de esclarecer nunca o ter conseguido trincar, escreve: “O olho chega a ocupar no horror um lugar extremamente elevado por ser, entre outras coisas, o ‘olho da consciência’.” E prossegue: “É bastante conhecido o poema de Victor Hugo, o olho obsessivo e lúgubre, olho vivo e pavorosamente imaginado por Grandville durante o pesadelo que pouco antecedeu a sua morte.”

Nesse instante de angústia, um criminoso é perseguido, desde um bosque até ao fundo dos mares por um olho que, qual “deus ex machina”, surge do negrume do céu. O assassino acaba por ser devorado, multiplicando-se os olhos sob as ondas. Voltando um pouco atrás no texto, Bataille afirma, sem hesitações: “Com efeito, a respeito do olho parece impossível pronunciar-se outra palavra que não seja sedução, pois nada é mais atraente do que ele no corpo dos animais e dos homens. Porém, a sedução extrema provavelmente fica situada no limite do horror.”

Na exposição de João Jacinto coloca-se sobretudo a questão “o que resta do olhar?”, quando há muito assistimos ao vazamento dos olhos – pelo menos desde Tirésias, que perdeu a vista por vingança de Hera –, e num tempo em que as vendas servem um pouco para tudo: do sexo à morte. A obra deste artista fala-nos exactamente desse nivelamento dos extremos, que hoje se oferecem ao nosso testemunho sobretudo em experiências mediadas por um ecrã. Nas suas obras, sejam pinturas, sejam desenhos, uma palavra – lenha – pode equivaler-se a um olho, a um saco de plástico, a um furo na superfície do papel. E na actual exposição esse mesmo substantivo – lenha – para além de lhe dar o título, agarra essa combustão que une todas as visões que se cruzam: a do artista connosco, a da obra com o espectador, a do público com cada trabalho exposto. É um exercício feito de sacrifícios, pois ninguém fica confortável com aquilo que assiste: objectos nascidos do carvão e da tinta aplicados em gestos contaminados pela passagem do tempo.

Escolhidas no seu ateliê – uma cave onde a poesia e a arte coabitam no mesmo chão invadido de tintas, poeiras e um repetitivo mosaico de azulejos –, numa selecção depois corrigida para melhor se sublinhar a tensão entre os olhos, o olhar e a matéria plástica que cola uma extremidade à outra, as obras agora apresentadas traduzem sobretudo esses instantes – íamos escrever estados de alma, mas pareceu-nos abusiva essa pretensão em fazer uma analogia entre as representações pictóricas e a vida interior de um sujeito, pois existe sempre essa capacidade de nos distanciarmos de nós mesmos – nos quais João Jacinto procura agarrar a visão ou antes as visões: de si, dos outros, do mundo. E, através desse combustível, faz com que tudo seja incinerado, cremado: a História da Pintura – Goya e Velázquez à cabeça –, os desejos – os do próprio artista, os do curador, os do público, que procura um sentido para aquilo que lhe é dado a ver –, a vida, ela mesma.

Há esta maneira negra, este olhar mortífero, que emerge desta exposição. Uma passagem de “Massa e poder”, de Elias Canetti, pode ajudar a aproximar-nos dela: “Se ao menos isto ou aquilo ardesse por completo.” O escritor de origem búlgara acrescenta: “… o sentimento de que está tudo a olhar para ela. É isso que ela quer, pois assim ela própria se transforma no fogo que as pessoas estão a mirar.” De quem se fala aqui? Uma resposta possível seria: da própria arte, que tem essa capacidade de nos mudar.

Uma guloseima canibal, portanto, estas obras que, depois de acolherem a cinza, o pó, continuam a queimar o olhar. São retratos e auto-retratos em brasa, muitas vezes deformados ao ponto de se tornarem irreconhecíveis: neles podemos ver monstruosidades, reflexos, vários espelhamentos. No fim, nada mais do que olhos, esse petisco de que nos falam Stevenson e Bataille. Dessa incandescência negra surge um enorme vazio, espécie de vítreo humor, que deixa espaço para aplacar o horror vivido na proximidade da morte. É nessa espécie de consolação metafísica, possível de vislumbrar através de furos e rasgões, de apressados riscos e subtis cores, que, quase sem nos darmos conta, nos percebemos do destino da arte, do nosso fim. Ali, ao alcance do nosso olhar, conduzidos pela mão do artista, vislumbramos, indistintos, o horror e a extrema sedução. Como afirma Tirésias, em “Édipo Rei”: “Como é terrível saber, quando o saber de nada serve a quem o possui."

João Jacinto iniciou em 1985 os seus estudos artísticos na E.S.B.A.L. Leccionou entre 1989 e 1992 no Ar.co em Lisboa. É, desde 2001, professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Expõe, individualmente, desde 1987. Tendo participado em inúmeras exposições individuais e colectivas. A sua obra encontra-se representada em várias colecções: CAM – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal, Caixa Geral de Depósitos, Lisboa, Portugal, Colecção António Cachola –MACE – Elvas, Portugal, Fundação PLMJ, Lisboa, Portugal, Museu do Chiado (Deposito Isabel Vaz Lopes), Lisboa, Portugal, Museo Extremeño Iberoamericano de Arte Contemporaneo, Badajoz, Espanha, Veranneman Foundation, Kruishoutem, Bélgica, Art Collectors, Genève, Suíça, Fine Arts Gallery, Brussels, Bélgica, Renate Schröder Gallery, Cologne, Mönchengadbach, Alemanha, Gallery Catherine Clerc, Lausanne, Suíça, Collection Kierbaum & Partner, Colónia, Alemanha, Fundação Carmona e Costa, Lisboa, Portugal, entre outras.

Folha de sala

Exposição
6 Jul – 4 Ago 2018

Inauguração: 
Sexta-feira, 6 Julho 2018, 22:00

Entrada gratuita