RAQUEL MOREIRAVolta do Salteador

Exposição
1 Fev – 29 Fev 2020

Inauguração:
Sábádo, 1 de Fevereiro de 2020, 17:00

Conversa com a artista:
Sáb 29 Fev 17:00

Entrada gratuita

Cortar o Nó Górdio

 

Conta o mito que Alexandre, o Grande, numa das suas campanhas de conquista pela Ásia Menor, se confronta com um desafio na cidade de Frígia: o de desatar o nó feito cem anos antes por Górdio, façanha que até então ninguém tinha conseguido realizar. Presa a uma coluna do templo de Zeus, estava uma carroça atada com um nó tão complexo que durante anos desafiara os esforços dos mais valentes reis e guerreiros que, em vão, o tentavam desenlaçar. Alexandre, depois de analisar o nó por alguns momentos, desembainhou a sua espada e, com um gesto fortuito, de um só golpe, cortou-o.

Se o Nó Górdio exigia engenho para ser desfeito,a Volta do Salteador, nó que dá título à exposição, é um nó de rápida libertação. Também conhecido como Nó de Evasão, é habitualmente utilizado nas descidas e prende temporariamente, sugerindo quer a possibilidade de queda, quer a ideia de jogo. Há a crença de que era utilizado por ladrões para soltarem rapidamente as rédeas dos seus cavalos e fugirem. Apesar de um único puxão no chicote ser suficiente para desfazer esta volta, a tracção no seu seio mantém-no seguro. Ainda que eficaz a suportar o peso de um corpo, é também perigoso, exigindo perícia e concentração a quem o utiliza. O que vemos nesta mostra é precisamente uma procura, feita pela acção repetida de atar e desatar, do entendimento das coisas, caso a caso, nó a nó. 

Há um fazer e refazer que se materializa num conjunto de elementos encontrados e construídos em diferentes momentos para esta exposição: como primeira pista, uma pequena alga encontrada numa cave e que se expande para dar lugar a um emaranhado de sargaço seco. Juntam-se ninhos feitos de cordas, paus e raízes; braços que se contorcem e enrolam naturalmente em novelos ao procurar nutrientes, expandindo-se por baixo da terra ou na água, enrolados pelas correntes. Não dão ponto sem nó, porque há nessa acção de crescer o interesse pela vida, mas também o desejo de domínio.

Usados para unir, rematar ou remendar, existem nós que pendem das árvores, amarrados a um ferro ou a uma pedra, nós enterrados na areia. Cordas, fios ou pedaços de tecido entrançados, que servem diferentes propósitos, sendo o mais comum o contexto marítimo, mas são também usados na agricultura e no cultivo das plantas; na actividade dos bombeiros e cirurgiões; nos lavores, na técnica do macramé, nos bordados, na costura, na joalharia; em volta das caixas, para as encerrar e transportar; nas gravatas e nos cordões do calçado; no corpo, como instrumentos de prazer, o shibari; de dor ou de repressão, a mordaça; nas tendas dos feirantes e no campismo; no desporto — redes de campos de jogo, na escalada, no escutismo; nas brincadeiras infantis, como saltar à corda, jogar à cabra-cega ou à cama-de-gato. Este último, conhecido no Japão como Ayatori, é uma sequência de posições construídas com fio entre os dedos, que pode desatar-se, voltando à posição inicial, ou continuar o seu ciclo, dependendo da habilidade do jogador; uma actividade inútil e inconsequente, que desaparece sem deixar marcas.

Outras voltas, apresentadas como desenho sobre papel, feitas a aparo, pincel japonês e tinta-da-china surgem à medida que a linha se inscreve, adensando-se até formar emaranhados. Uns são nós cegos que potenciam a confusão, outros remetem para a corda ao pescoço, para o sufoco ou nó na garganta. Neles também se pode ver uma espécie de escrita inventada que faz lembrar os milenares Quipos, uma forma ainda pouco estudada de comunicação Inca, feita através de conjuntos de cordas e fibras com diferentes nós, que serviam para registar informações, números e possíveis narrativas.

 

Libertando-se da bidimensionalidade do desenho, a exposição integra ainda um conjunto de vinte caixas cimentadas. A argamassa que preenche estes contentores é feita com areia de rio e mar, e cada um contém ganchos e nós. Transportando para o espaço expositivo o contexto geográfico onde foram concebidos, podemos vê-los como pequenos pedaços de chão, ou exercícios topográficos, guardados em caixas reaproveitadas, que em tempos terão servido para conservar objectos de valor. Cada uma sugere metáforas para outros nós, uns de água doce, outros mais acres, de água salgada; testemunhos de passagens, compromissos assumidos ou desfeitos — mordendo ou roendo a corda.

Nesta exposição sublinha-se uma vez mais um modo de fazer que se pauta não só pela repetição como forma de compreensão, mas também pela referência a um corpo ausente, que em trabalhos anteriores se tem vindo a revelar de outras maneiras, como a grattage sobre fotografia. Esse corpo apresenta-se agora sob a forma de adereços: uma venda para os olhos, já usada, propõe não só o jogo, mas uma outra leitura sobre os objectos, mais táctil, e que pode escapar ao olhar desatento; a corda de salto, que pode ter tanto de infantil como de trágico, é apresentada como ferramenta para impulsionar o corpo do chão, quem sabe, a um precipício; a gravata, com o diâmetro de um pescoço e as botas, deixadas a um canto. Estes elementos, que foram pintados com a mesma tinta que os desenhos, ganham o peso do desaparecimento através do negro que os cobre. E talvez as cordas representadas no papel possam ser a interpretação de um corpo, ou das suas entranhas. E, com a mesma proveniência da tinta, surge o ditado chinês que propõe: Antes de iniciares a tarefa de mudar o mundo, dá três voltas à tua própria casa.

Raquel Moreira (Porto, 1983), é doutoranda em Arte Contemporânea no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. A sua formação inclui o mestrado em Estudos Artísticos - Estudos Museológicos e Curadoriais (FBAUP), a licenciatura em Artes Plásticas – Multimédia (FBAUP) e a licenciatura em Gestão do Património (ESE-IPP). 

Tem vindo a apresentar regularmente o seu trabalho desde 2010, em exposições individuais e coletivas, em espaços como a Casa Tait, Casa do Médico, Museu da FBAUP, KubikGallery, Fundação José Rodrigues e Galeria do Sol (Porto), Lugar do Desenho (Gondomar), Bienal de Cerveira, Galeria do Colégio das Artes e Círculo de Artes Plásticas (Coimbra). 

Desenvolve a sua atividade profissional na área da produção cultural desde 2006, tendo colaborado durante nove anos na organização de exposições na Solar – Galeria de Arte Cinemática e na produção do Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema e, pontualmente, na realização de atividades educativas em diferentes instituições. Atualmente exerce atividade como docente na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. 

Folha de sala

Exposição
1 Fev – 29 Fev 2020

Inauguração:
Sábádo, 1 de Fevereiro de 2020, 17:00

Conversa com a artista:
Sáb 29 Fev 17:00

Entrada gratuita