AVRIL CORROONVaca & Cancela

Exposição
10 Set – 15 Out 2022

Inauguração
Sábado 10 Setembro

Entrada gratuita

HISTÓRIA DE SONHO 

Quando caminham juntos, ao final da tarde, é na floresta perto da tua casa. É Outono em Londres, claro e brilhante; através das árvores, podem ver-se as fachadas dos prédios, vividamente iluminadas de amarelo, em contraste com o cinzento plúmbeo do céu. Dentro de algumas horas, o pôr-do-sol irá incendiar as nuvens. O céu é imenso e violentamente fechado por cima da copa das árvores, mas aqui em baixo estamos abrigados; há uma sensação de isolamento e profundidade, de enormes distâncias. De qualquer modo, estás mais concentrado no outro, que te acompanha. O tempo é bem passado - sentes amor e um vínculo, sentes que ambos estão felizes enquanto caminham, por vezes conversando sobre coisas profundas e intensas ou sobre arte, mas a maior parte do tempo apenas caminhando num silêncio confortável. De quando em quando, pressionas com o dedo a palma da outra mão para teres a certeza de que, mesmo inconsciente, ainda tens controlo total sobre o que acontece. Podes fazer o que quiseres, mesmo que não explores isso plenamente, pois a tua postura ética está profundamente desenvolvida e sob pleno controlo operacional, mesmo aqui embaixo, nas águas exuberantes da fabulação. Após algum tempo, a cena dissolve-se, despertas e registas a experiência em detalhe para que mais tarde a possas partilhar.

O quarto é pequeno e obsessivamente limpo. Uma pequena janela, uma secretária e uma cadeira que mal cabem no espaço, uma estrutura de cama e um colchão, um candeeiro que pode ser ajustado para irradiar qualquer cor. Uma estante com livros de ficção e também de teoria de diferentes disciplinas artísticas e crítico-académicas - não muitos livros, mas certamente uma colecção de escolha criteriosa. No exterior, há uma cozinha e uma casa de banho partilhadas, além de outros quartos que florescem a partir do corredor central. Não existe uma sala comum e na cozinha não há lugar para sentar. Há uma sensação desagradável, pressente-se a ansiedade, pequenas discussões. Talvez estejamos a ser injustos; não conhecemos as pessoas que aqui vivem. Se estas salas fossem um retrato, tratar-se-ia de um mau retrato, manchado e desfocado, onde os traços não se alinham como seria suposto, quem sabe se algo errado com os olhos que nunca chegam a encontrar o teu olhar.

Todas as noites, quando dormes, regressas à floresta ou tentas fazê-lo. Por vezes, é tão fácil como imaginar a porta e atravessá-la. Outras vezes, as coisas correm mal. Uma noite, damos por nós presos debaixo de destroços de aço e vidro, enquanto nos tentamos mover ou gritar, incapazes de mexer as pernas, incapazes de abrir a boca. Tudo o que podemos fazer é deslizar as mãos sobre o estômago e o peito nu, procurando o que está errado, porque alguma coisa está errada, esfregando as mãos em círculos no líquido espesso que cobre a barriga, traçando padrões húmidos, tentando fazer um som. Encontrar a porta requer um certo grau de concentração. Tentamo-nos acalmar, esconder o pânico que nos torna um animal moribundo. Não sabemos onde está a palma da mão para a pressionar com o dedo. As mãos só se deslocam em círculos planos através da pele escorregadia da barriga e não conseguimos descobrir o que está mal. Acordamos e tomamos notas.

Tentas inventar um espaço onde se possam conhecer um ao outro sem a mediação da linguagem, um lugar que permita uma empatia genuína. Uma zona onde as situações e as relações seguem a lógica da fantasia. Chamas a isto solidariedade e lembras-te que, no início da experiência, chegou a falar-se de experimentação utópica, de desenvolver um conjunto de ferramentas para intervir na violência da cidade. O sonho é um meio, um substrato formal, uma zona de testagem onde os modelos e os processos se arriscam a ter as suas capacidades votadas ao fracasso. Os corpos são jovens, resistentes, destemidos, invisíveis aos seguranças e dispositivos de vigilância, capazes de desaparecer, como num truque de magia, capazes de se serrarem uns aos outros, recombinando posteriormente as peças, sem medo de danos físicos ou psicológicos, a alma e a mente tão invulneráveis quanto a carne. Consideras-te um sonhador que, através de uma alquimia milagrosa, se pode criar a si próprio instintivamente, tal como crias a porta ou a floresta, livre de qualquer ansiedade. Podes lançar este produto sobre qualquer coisa que a tua imaginação é capaz de conceber.

Quando o apartamento aparece no sonho é diferente, tal como a floresta, tal como o corpo; o que não te impede de o reconheceres imediatamente sem as patines, como um espaço fresco (ou ameaçador, dependendo do teor geral da cena). Não há a responsabilidade de representar com precisão um espaço em particular e há algo de libertador neste reconhecimento que não depende da semelhança. Isso é certo tanto para as pessoas como para as atmosferas, bem como para os espaços. O apartamento ou é um centro de planificação, onde se reúne a equipa de hiperespecialistas, que se debruça sobre as plantas dos bancos e os perfis psicológicos das suas vítimas, ou é um bunker secreto onde se pode relaxar, jogar às cartas, ler, cozinhar, ver filmes, tudo isto enquanto, lá fora, a carnificina continua com crescente intensidade e crueldade. Lá fora, as coisas estão cada vez piores. Não sabemos se as agravámos ou se simplesmente nos tornámos mais sensíveis aos sintomas que reconhecemos em todo o lado, fluindo por baixo das coisas, com os seus movimentos, sombras e vibrações que tudo afectam. São orifícios negros cavados através do substrato material do mundo que o transformam em favo de mel. As superfícies parecem as mesmas de sempre, mas sabemos que tudo mudou.

Entretanto, lá fora escureceu. Caminhando pelos destroços do apartamento descobres que as portas do corredor conduzem à floresta e, quando as atravessas, percebes que o caminho da floresta te conduz a outro lugar, a um lugar que nunca viste. Não sabes o que poderá acontecer se seguires esse caminho. Tudo à tua volta aparece sob a luz de uma lua prateada, o resto são sombras negras profundas. O outro também está lá contigo. De repente, apercebes-te de um grupo de pessoas no apartamento que te está a seguir e não queres ser encontrado, essas pessoas querem magoar-vos. Não são propriamente humanos, embora sintas que podes reconhecer os seus rostos. Nesse momento, nunca te ocorreria pressionar o dedo através da mão para assegurares um controlo de alto nível sobre o espaço. Quando acordares, pensarás que é o pânico que te impede de agir - o mesmo pânico familiar de alguém que fica preso, incapaz de se mexer. Precisas escapar. Precisas encontrar uma porta. Mas, quando te viras para falar, apercebes-te que, embora a boca esteja a funcionar, não pode formar palavras ou sons. Pensas por um momento e tentas comunicar através do olhar, através da pura telepatia. À tua volta, há um sentimento maléfico e temes respirar para não o absorver. O outro diz-te para não te preocupares, pois não é o mal, mas a telepatia. Isto é que é comunicar com mediação zero. Dizem-te para não te preocupares. Olhas para eles, estabeleces contacto visual e transmites a tua mensagem absolutamente precisa: temos de partir antes que os outros cheguem, temos de encontrar um novo lugar se quisermos manter tudo isto em movimento. Ainda temos tanto para explorarmos juntos. Mas, uma vez mais, dizem-te para não te preocupares. Pára de te preocupares. Podes ir quando quiseres. Podes partir quando quiseres. Eu não. Tenho de ficar aqui com eles, apesar de não querer. Não posso partir porque nasci aqui.

Louis Mason

Avril Corroon (Irlanda, 1991) é uma artista visual que trabalha com imagem em movimento, performance e escultura, examinando as condições de vida precárias, a crise da habitação, as desigualdades económicas e a exploração laboral. Mediante a construção de um Porsche à escala 1:1, com papelão coberto por uma capa de protecção de carro, queijo artesanal feito a partir de bolor tóxico recolhido em alojamentos alugados ou filmando dissimuladamente enquanto serve, mal, as mesas num restaurante, Avril combina um humor negro, absurdo, com a crítica. Em 2019, Avril Corroon concluiu o seu MFA na Universidade de Goldsmiths. Tem vindo a desenvolver, em 2022, o projecto “Got Damp” no TACO (2023), em Londres. Realizou várias exposições individuais, destacando-se: “Spoiled Spores”, com curadoria de Sheena Barrett no LAB, Dublin (2020) e “Just Do It”, no Ormond Studios, Dublin (2014). O seu trabalho foi exposto e projectado em The Feminist Supermarket na Ormston House, Limerick (2021), em Work in Progress na South London Gallery (2020), em “Forming a Residency Association” na Lux (2020), na Enclave (2018), em Londres, no Hotel Maria Kapel, na Holanda (2016) e na Temple Bar Gallery & Studios, em Dublin (2016). O seu trabalho tem vindo a ser coleccionado pelo Arts Council Ireland.

Folha de sala

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Exposição
10 Set – 15 Out 2022

Inauguração
Sábado 10 Setembro

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