MANUEL JOÃO VIEIRAMetamorfoses

Exposição, Fora de Portas
12 Dez 2020 – 10 Jan 2021

Inauguração 
Sábado, 12 de Dezembro, 10h30

Entrada gratuita

Curadoria de Óscar Faria

O maravilhoso mundo de Manuel Vieira

Óscar Faria

As “Metamorfoses" de Manuel Vieira devem tudo a Ovídio. E, contudo, em nada se inspiram na obra maior do autor do século I. O que une então ambos os nomes, o do artista lisboeta e o do poeta romano? A torrencial imaginação, que depois é vertida em desenhos, pinturas e textos onde tudo parece em permanente devir: um homem muda-se em bicho, árvore, arquitectura, paisagem, como se tal transformação fosse a coisa mais natural deste mundo. Somos mesmo levados a acreditar que assim é que está certo: as fontes têm bocas e uma mulher tem uma colher no lugar da cabeça, tal como nos havia já ensinado Alberto Giacometti, que se inspirou num utensílio cerimonial dos Dan, um povo da Libéria, para realizar, em 1926, a sua versão de um imponente ser feminino, uma escultura na qual se misturam também elementos cubistas e abstractos.

A mulher também é celebrada nas obras de Ovídio e Manuel Vieira. No caso deste último, a sua presença é manifesta em desenhos e pinturas nas quais surge ora devorada por monstros, transportada de costas no dorso de um cavalo que galopa no céu, possível tatuagem de um marinheiro, deusa e musa, fadista e desejado corpo. No caso do poeta romano, essa celebração do feminino acontece de uma forma que nos pode levar a colocar a hipótese de ser este autor um precursor da igualdade entre os sexos. Como nota Carlos Ascenso André, Ovídio é “o único de entre os elegíacos que insiste na ideia de que o homem tem de pensar também no prazer da mulher e não apenas no seu"1.

A transformação de Dafne em loureiro, é assim descrita por Ovídio, no primeiro livro de “Metamorfoses", nesse instante em que a filha de Peneu, perseguida por Febo, quase a ser alcançada, apela à sua transformação: “Mal terminara a prece, um pesado torpor invade o corpo./ O macio peito da jovem é envolto por uma fina casca,/ os cabelos alongam-se em folhas, os braços em ramos,/ os pés, há pouco tão lestos, fixam-se em indolentes raízes;/ o rosto faz-se copa: só o seu esplendor permanece nela.”2 Esta mutação é apenas uma das muitas que acontecem ao longo desta obra e que antecipa em cerca de dois mil anos as teorias de Donna Haraway, nomeadamente as relacionadas com o corpo ciborgue ou com os encontros entre as espécies.

No maravilhoso mundo de Manuel Vieira, as metamorfoses parecem não ter fim, aconteçam elas em rolos com 10 metros de comprimento preenchidos por desenhos, ou numa das pinturas resolvidas recentemente para esta exposição. De facto, o artista foi ao seu próprio acervo escolher os trabalhos que melhor se adequavam ao tema do ciclo. E, à boleia dessa intenção, decidiu não só terminar alguns quadros entretanto esquecidos nalgum recanto da sua casa-ateliê, mas também realizar, ao longo dos últimos meses, um novo corpo de obras no qual é evidente a presença de elementos animais, vegetais e minerais.

Temos assim, na Casa das Artes, uma celebração da História da Arte centrada numa figuração quer relacionada com o fantástico, quer com o tema da paisagem, quer ainda com certos motivos simbólicos, como o templo, a cascata ou a árvore. Nesse sentido, os trabalhos de Manuel Vieira citam autores que vêm desde Monsù Desiderio, activo no século XVII, até Walt Disney, passando por Fragonard, Giorgio de Chirico, Paul Klee, Magritte ou mesmo o anónimo autor setecentista das gravuras para “A nova Justine", do Marquês de Sade . A exposição é assim formada por obras que nos transportam para um universo surrealista transbordante, o qual, por sua vez, acolhe no seu seio outras tradições pictóricas, como a romântica, a metafísica e a abstracta – há ainda a evocação das extravagantes “chinoiseries” setecentistas e dos pintores maneiristas, na época considerados como autores de uma arte “decadente, repulsiva e afetada, que se afastava dos cânones de equilíbrio, harmonia, racionalidade, moderação e clareza consumados na Alta Renascença pela obra de artistas como Rafael Sanzio e na primeira fase de Michelangelo.”3

Na montagem, procurou-se tirar partido da arquitectura da sala. De um lado, ao longo de uma das paredes, mostram-se dois rolos de desenhos realizados em 2011. Em frente, um conjunto de pequenos trabalhos recentes, as “pinturas do confinamento", os quais resultaram de uma estadia de Manuel Vieira no Alentejo. Os assuntos são recorrentes na obra do artista, podendo-se olhar para cada uma das obras como se fosse uma cena de uma peça de teatro ou mesmo de uma ópera cómica, pois é o humor, negro, inglês ou à Vilhena, que acaba por unir todas as criações agora reveladas na Casa das Artes.

E ainda temos a “Vespa", elemento concreto, isolado, que nos faz sentir o seu zumbido, a sua presença, entre todos os vícios e virtudes representados na exposição. É desse insecto que nos fala Gilles Deleuze numa passagem dos “Diálogos" com Claire Parnet. Debatiam ambos acerca de “um bloco de devir, uma evolução a-paralela", quando acontece esta passagem luminosa: “É isso a dupla captura, a vespa E a orquídea: sequer algo que estaria em um, ou alguma coisa que estaria no outro, ainda que houvesse uma troca, uma mistura, mas alguma coisa que está entre os dois, fora dos dois, e que corre em outra direção. Encontrar é achar, é capturar, é roubar, mas não há método para achar, nada além de uma longa preparação. Roubar é o contrário de plagiar, de copiar, de imitar ou de fazer como. A captura é sempre uma dupla-captura, o roubo, um duplo-roubo, e é isso que faz, não algo de mútuo, mas um bloco assimétrico, uma evolução a-paralela, núpcias, sempre ‘fora’ e ‘entre’. Seria isso, pois, uma conversa.”4

A “Vespa” pode ser assim entendida como a imagem fecundante da pintura, que se desdobra nas múltiplas direcções presentes em “Metamorfoses”: óleos sobre tela, tinta-da-china sobre papel, cerâmicas e esculturas. Há um permanente devir destes trabalhos, que não querem ser dados como acabados. É como se existisse um qualquer mecanismo interior que impedisse a sua conclusão. Existe sempre algo a fugir-nos do olhar: uma figura é sempre mais qualquer coisa do que à primeira vista nos poderia parecer. Uma árvore é um rosto e o rosto é uma caveira. Uma árvore é um retrato de um toureiro. Uma árvore florescente representa a morte. A árvore e a caveira: é isso a dupla captura. E são tantas as núpcias a descobrir na exposição.

O desafio maior será o da tentativa em descrever cada um dos trabalhos de Manuel Vieira, mesmo aqueles nos quais o artista coloca limites à sua própria imaginação. É o caso de uma das “pinturas castanhas", ainda fresca, na qual se observa um “contemplador" a olhar provavelmente para o seu próprio fim: ao longe, um cipreste anuncia esse destino, que é também, portuguesmente falando, um fado vadio “sobrevoado por moscas, picado por pirilampos"5. Uma conclusão a que também podemos chegar conduzidos pelos belos versos de Ovídio, que na boca de Narciso coloca estas palavras: “(…) Não me resta muito tempo/ para viver, desapareço em plena floração da juventude. A morte não me é coisa cruel, pois na morte deixarei a dor:/ mas ele, a quem eu amo, prouvera que vivesse mais tempo!/ Agora morreremos os dois juntos, num só último sopro.”6

 

1 ANDRÉ, Carlos Ascenso. Caminhos do amor em Roma. Lisboa: Livros Cotovia, 2006, p. 73.

2 OVÍDIO. Metamorfoses. Lisboa: Livros Cotovia, 2007, p. 51, tradução de Paulo Farmhouse Alberto.

3 In Maneirismo: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Maneirismo, página consultada a 06.12.2020.

4 DELEUZE, Gilles e PARNET, Claire (1977). Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998, tradução de Eloisa Araújo Ribeiro

5 BRITO, Fernando. Fado Boi. In VIEIRA, Manuel João. Anatomia do fado. Lisboa: Fado Discos, 2020. 2 CD. Faixa 4 (3 min 36).

6 Cf. OVÍDIO. Op. cit. p. 97.

ANIMALIDADES E OUTRAS BOTÂNICAS

Ciclo de exposições

O ciclo “Animalidades e outras botânicas” pretende trazer para o primeiro plano uma reflexão sobre a forma como a arte tem vindo a criar novos espaços para o encontro entre as espécies, nessa tentativa de aproximar natureza e cultura, incluindo-se nesta proposta, entre outras, as ideias de Donna Haraway, Timothy Morton, Bruno Latour, Paul B. Preciado, Edward Osborne Wilson, Henry David Thoreau, e os poetas W.S. Merwin e Gary Snyder e a sua “ecologia profunda” que, no prefácio ao seu livro “A prática da natureza selvagem” (edição portuguesa, Antígona, 2018), escreve: “O mundo selvagem—frequentemente depreciado como caótico e brutal pelos pensadores ‘civilizados’—é na verdade imparcialmente, implacavelmente, belamente formal e livre. A sua expressão—a riqueza da vida animal e vegetal no globo, que inclui as tempestades, os vendavais, as calmas manhãs de Primavera, e nós próprios—é o mundo real, a que todos pertencemos.”

Manuel Vieira (1962) vive e trabalha em Lisboa. Integra o grupo Homeostético desde 1983, o grupo Ases da Paleta em 1989, e o colectivo Orgasmo Carlos desde 2002. O seu trabalho integra diversas coleções públicas e privadas, nomeadamente na colecção do Museu de Serralves, Fundação Ilídio Pinho, Fundação Luso-Americana para o desenvolvimento, entre outras. 

Folha de sala

Exposição, Fora de Portas
12 Dez 2020 – 10 Jan 2021

Inauguração 
Sábado, 12 de Dezembro, 10h30

Entrada gratuita