ALEXANDRE ESTRELALixo de Pinho

Exposição
21 Dez 2019 – 25 Jan 2020

Inauguração: 
Sábado, 21 Dezembro 2019, 17h

Curadoria de Óscar Faria

Lixo de Pinho: “statements”

Óscar Faria

Em 1968, o então galerista nova-iorquino Seth Siegelaub publicou, numa edição de mil cópias, “Statements”, o primeiro livro de artista de Lawrence Weiner. A publicação inclui 24 textos, metade dos quais “gerais”, sendo os restantes “específicos”, os quais devem ser lidos como obras de arte conceptuais. As declarações do artista norte-americano convidam a materializar, ou não, os trabalhos nelas descritos, usando para esse fim materiais tão diversos como o linóleo, o plexiglass, estacas, pregos, calcário, etc. “Um banal marcador de tinta permanente atirado ao mar”, “Uma folha de plástico transparente presa ao chão ou à parede”1 ou “Um quarto de esmalte exterior verde lançado a uma parede de tijolos” são algumas dessas afirmações que têm a qualidade de poderem ser produzidas por quem queira seguir as instruções.

Um ano mais tarde, mais precisamente no catálogo da mostra “Janeiro 5-31 1969”, Lawrence Weiner publicou “Statement of Intent”, estranhamente esquecido da antologia crítica dedicada à arte conceptual editada por Alexander Alberro e Blake Stimson, onde formula algumas preposições através das quais define os parâmetros de existência de uma obra, trazendo-a, num gesto com consequências profundas, para o campo da linguagem. Nesses parágrafos, hoje célebres no contexto da história da arte contemporânea, pode ler-se: “(1) O artista pode construir a peça. (2) A peça pode ser fabricada. (3) A peça pode não ser fabricada”2. Tendo em conta estes pressupostos, cada trabalho pode apenas perdurar na sua formulação escrita, impressa, sendo esta a primeira, a única e estritamente necessária condição para corporalizar uma ideia: desde então, o texto passa a ser sinónimo de obra arte, dispensando-se assim a produção do objecto nomeado em cada “statement”, que assim passa a existir unicamente enquanto conceito.

Num outro livro, assinado apenas por Alberro, este autor dedica um capítulo àquilo que designa como “linguistic turn” – “viragem linguística” –, um corte epistemológico a partir do qual, segundo Derrida, a ciência produz-se “no elemento do discurso.” Nessas páginas de Conceptual art and the politics of publicity (MIT, 2003), Alberro centra-se na produção artística de Lawrence Weiner, desde a passagem das pinturas “Propeller” para o corpo de trabalho reunido sob a designação de “Removal”, o qual foi realizado com recurso a um processo mecânico, até às últimas obras pictóricas dessa época, a década de sessenta do século passado, as quais são descritas pelo próprio título. Como nota o professor de História de Arte e crítico de arte, “(…) uma das condições explícitas da arte conceptual de Weiner era a de que ela não precisava de ser construída e a decisão de dar forma física a uma peça era deixada aos espectadores, ou, na terminologia de Weiner da época, aos ‘receptores’ ”.3

“Lixo de Pinho”, de Alexandre Estrela, é uma proposta que tem elementos que podem ser lidos na continuidade dos projectos de arte conceptual dos anos de 1960. Em 2015, o artista recolheu de um contentor de lixo, colocado diante da casa do ex-ministro Manuel Pinho, cerca de quatro dezenas de livros, a grande maioria de economia e ainda um volume dedicado a Lawrence Weiner, editado pela Phaidon, em 1998, no âmbito da sua série dedicada a artistas contemporâneos – esta obra tem a particularidade de estar autografada, o que lhe confere um outro valor, nem que seja apenas o de um objecto estimado. Não sabemos o que levou a tão grande desperdício –  e aqui apoiamo-nos na noção de despesa de Georges Bataille, texto fundamental para se compreender o estado actual do mundo e onde se lê: “A inveja de ser humano para ser humano liberta-se como entre os selvagens com uma brutalidade equivalente: só a generosidade, a nobreza desapareceram e, com elas, a contrapartida espectacular que os ricos prestavam aos miseráveis”4 –, contudo uma coisa é certa: “Nada se perde, tudo se transforma.”

Alexandre Estrela respigou assim os livros e, num gesto visionário, entregou parte do espólio, 25 volumes, à biblioteca do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa - a selecção foi feita pelos bibliotecários desta instituição –, não sem antes ter carimbado cada obra com um explícito ex-libris: “Lixo de Pinho”.  No Sismógrafo, revelam-se 23 destes compêndios, a que o artista acrescentou, numa das páginas iniciais, uma xilogravura na qual se observa um fragmento de uma tábua em madeira de pinho, fechando-se assim um círculo iniciado há mais de quatro anos. Este trabalho pode ser considerado como uma das mais consistentes manifestações de uma arte com cariz não só conceptual, mas também político, no contexto actual. É um projecto de uma eficácia desarmante: o lixo de Pinho transformou-se na arte de Alexandre Estrela. Livros de artista, uma colecção inteira oferecida quer à biblioteca, quer a amigos. O artista ficou apenas com um exemplar. A obra publicada dedicada a Lawrence Weiner. Por coincidência, um dos autores é mesmo Alexander Alberro. Como diz o artista norte-americano, numa nota de 1995: “All art is made from anger”. Podíamos acrescentar aqui o contrário: “Toda a arte é feita sem ira”. Basta estarmos atentos ao lixo dos outros.

Uma última nota, ouvida num retiro com um velho mestre tibetano: evitem deitar fora livros, sobretudo aqueles relacionados com arte conceptual: para além do karma que se transporta para outras vidas, dá azar. Se encontrarem obras deste género na rua, guardem-nas, pois funcionam como amuletos: a fortuna será constante e serão abençoados por Chenrezig, aquele que enxerga os clamores do mundo. Todos os benefícios colhidos através desta acção têm como consequência imediata o acumular de méritos, os quais fazem mover as rodas da arte, do pensamento e da economia. Expor objectos com palavras recolhidos por alguém é tido como uma atitude de compaixão por todos os seres que alguma vez se desfizeram de textos sagrados (como é o caso dos de Lawrence Weiner). Serão também muitas as benesses trazidas por esse gesto, até porque, como diz o iluminado santo: “Sabes, deverias ter sempre cuidado com o que desejas, porque - o que quer que seja, bom ou mau - mais cedo ou mais tarde irás obtê-lo”.5

 

1 Laurence Wiener, Statements, 1968.

2 Seth Sieglaub, January 5-31 1969, New York, 1969.

3 Alexander Alberro, Conceptual art and the politics of publicity, Cambridge, Massachusetts, London: MIT, 2003, p. 100.

4 Georges Bataille, A parte maldita, precedido de A noção de despesa, Lisboa, Fim de Século, 2005, p. 40.

5 Kenneth Kraft (ed.), Inner Peace, World Peace: Essays on Buddhism and Nonviolence, New York: State University of New York Press, 1992, p. 78.

 

 

Alexandre Estrela (Lisboa, Portugal. 1971). Das exposições individuais destacam-se: “Um mês acordado”, com curadoria de Gerard Faggionato (Galeria Indipendenza, Roma, Itália, 2019); “Metal Hurlant”, com curadoria de Sérgio MAH (Fundação Calouste Gulbenkian, Paris, França, 2019); “Volta grande”, com curadoria de Luiza Teixeira de Freitas (Pivê Arte e Pesquisa, São Paulo, Brasil, 2019); “Knife in the Water” (Travesía Cuatro, Madrid, 2018); “Ouro Mouro” (Quetzal Art Centre, Vidigueira, Portugal, 2018); Baklite (CAV Centro de Artes Visuais, Coimbra, Portugal, 2017); “Cápsulas de silencio” (Programa Fisuras, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madrid, 2016); “Roda Lume” (Museu de Arte Contemporánea de Amberes M HKA, Bélgica, 2016); “Meio Concreto” (Museu de Serralves, Porto, Portugal, 2013); “Um homem entre quatro paredes” (Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil, 2013); “The Sunspot Circle” (The Flat Time House, Londres, Reino Unido, 2013), entre outras. Participou também em exposições coletivas como: “Points de rencontres”, com curadoria de François Piron (Centre Georges Pompidou, Paris França, 2019); “Lua Cão”, com João Maria Gusmão e Pedro Paiva, com curadoria de Natxo Checa (La Casa Encendida, Madrid, Espanha, 2018); “Anozero – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra” (Coimbra, Portugal, 2017), “L’exposition d’un Rêve” (Fundacão Calouste Gulbenkian, Paris França, 2017); na ACMI Melbourne (Austrália, 2017) e na TATE Modern (Londres, Reino Unido, 2017), com um projecto de Mathieu Copeland; “Hallucinations”, um festival comissariado por Ben Russel (Documenta 14, Atenas, 2017), entre outras. A sua obra faz parte de coleções nacionais e internacionais como: Museu Rufino Tamayo (Mexico); Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal); Museu Nacional de Arte Contemporânea — Museu do Chiado (Portugal); Fundação Telecom (Portugal); Fundação Serralves (Portugal); Coleção António Cachola (Portugal); MAAT — Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (Portugal); Fundación Museo de Arte Reina Sofía (Espanha); Colección Inelcom (Espanha); Coleção Taguchi Art (Japão), Aveline de Bruin Collection (Netherlands), entre outras. Desde 2017, Alexandre Estrela dirige e programa o espaço de arte sem fins lucrativos “Oporto”, em Lisboa.

Exposição
21 Dez 2019 – 25 Jan 2020

Inauguração: 
Sábado, 21 Dezembro 2019, 17h