Fundado em 2014, o Sismógrafo tem vindo a produzir centenas de atividades públicas, com destaque para um programa contínuo de exposições de artes visuais, pontuado por iniciativas ligadas também à performance, à música experimental, à literatura e ao pensamento, envolvendo directamente largas dezenas de artistas e autores. O espaço, com um horário de abertura fixo às quintas, sextas e sábados, das 15h às 19h, acolhe visitas regulares do público, bem como conversas com os artistas e curadores no âmbito de cada exposição, estreitando a proximidade e o diálogo entre os criadores e a comunidade.

A inspiração chegou-nos tanto de Yves Klein – do seu famoso “saut dans le vide” –, como de Aby Warburg, que entende a tarefa do historiador como a actividade de um sismógrafo, aquele que sinaliza os instantes singulares do presente e os liga a uma tradição. Captar as energias da contemporaneidade, intuir os futuros e mais intensos movimentos da arte, oferecendo-os a quem nos visita: este tem sido o nosso desígnio nos últimos oito anos. E assim pretendemos continuar: a pensar a arte numa época onde a cultura aparece associada à indústria, num tempo de empobrecimento da experiência e da recepção, tentando responder aos desafios do presente.

O Sismógrafo conta com uma equipa diversificada, que reúne diferentes experiências e ferramentas, quer relativas ao pensamento e à prática da arte contemporânea e do design, quer no que diz respeito às questões logísticas e de gestão de projecto. O colectivo que constitui o Sismógrafo partilha funções e responsabilidades que vão desde a criação de um discurso programático coerente, a montagem e produção de exposições e outros eventos, a publicação de catálogos e pequenas edições de artista, até à criação de conteúdos de apoio às exposições e à realização de iniciativas de formação de públicos.

No Sismógrafo registam-se as dinâmicas sociais, medem-se as experiências que trepidam subterraneamente. Deixamo-nos interpelar pela realidade, pelo que está a acontecer. Não se trata de seguir modas, que logo passam de estação, mas de estar à altura dos tempos. E, nos tempos que agora vivemos, a natureza lembra- nos a nossa vulnerabilidade, a nossa própria finitude. A realidade impõe-se de tal forma que parece coarctar a fantasia. Mas, apesar de tudo, o espírito sobrevive e, nestes tempos difíceis, a cultura mostra a sua resiliência, é celebrada como baluarte da experiência humana.

Muitos vêem estes momentos de crise como uma oportunidade para o despertar político, para a transformação social. Que reacção desencadeia este momento histórico na prática artística? Como respondem os discursos artísticos às alterações climáticas, à gentrificação, à violência sexista de uma sociedade em que o patriarcado e o neoliberalismo formam uma aliança que aposta pela submissão, pela discriminação, pelo binarismo de género, pelo ódio ao diferente, pelo racismo institucional, por muros e fronteiras, por novos colonialismos, por uma tentativa de se apoderar de toda a produção, arruinando e subordinando o trabalho de reprodução social? Que progresso é este que anexa e espolia a natureza, que degenera as condições de vida numa natureza envenenada, que destrói os cuidados de saúde, a educação, que propicia realidades laborais de exploração e sistemas financeiros que estendem os seus tentáculos a todo o tecido social?

Do futuro chegam-nos as exigências daquilo que no passado ficou por cumprir. A nossa programação não esquece essas exigências. Precisamos, mais do que nunca, de empatia com a realidade, agregação da vida. Precisamos das formas expressivas que permanecem em minoria e sobrevivem tenazmente, precisamos de salvar da indiferença o particular. Reivindicamos, por isso, uma fantasia que não se deixa integrar, uma imagem ausente, que escapa à política e a um sistema económico que escraviza os sentimentos. O esquecido deixa as suas marcas, os seus vestígios. Torná-los visíveis, seguir os seus traços, é a nossa tarefa. Isto tem a ver com a experiência, com a forma como a edificamos e partilhamos.

Entendemos o Sismógrafo como uma morada para a experiência, um espaço para a participação, a cooperação e a diversidade. Como diz Alexander Kluge, a interacção é um “remédio natural contra o preconceito”. A programação que agora apresentamos abre um novo capítulo na história do Sismógrafo. Diferentes formas de expressão formarão uma constelação. Cada exposição será autónoma, e, ao mesmo tempo, em cada uma aparecerão todas as outras. Aberta, inesperada, cada exposição apresentar-se-á como um fragmento de realidade e um mecanismo de reparação. Uma reacção alérgica contra a fatalidade (Freud), confiando não só no intelecto, mas também na capacidade crítica da pele, o nosso maior órgão. O Sismógrafo apresentará obras que, não sendo apenas um diagnóstico do nosso tempo, encerram um conteúdo utópico, como diz Stendhal, uma promesse de bonheur.

Quando realidades como a crise financeira ou a pandemia, que golpeiam, ferem e afectam directamente a vida das pessoas, são mostradas pelos meios de comunicação e pelas redes sociais como grandes obras de ficção, precisamos de uma arte que recombine documentação e ficção. Para nos orientarmos nos labirintos da realidade, precisamos, não de um caminho já traçado, mas, como postula T. W. Adorno, da diversidade radical da expressão.