2014, 11.01, sábado/saturday 22:00 / Ensemble de Gamelão Casa da Música + Kevin Van Braak

Ensemble de Gamelão Casa da Música + Kevin Van Braak

Depois, lentamente esqueceste. / Só és lembrado em duas datas, aniversariamente: / Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste. / Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada. / Duas vezes no ano pensam em ti. / Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram, / E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

["Se te queres matar, por que não te queres matar?", Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), 26 Abril 1926]

Dia 1 de Novembro, pelas 22h, o Ensemble de Gamelão Casa da Música protagonizou "Em memória dos nossos antepassados", um momento musical por ocasião da exposição "Demasiadas sombras", de Kevin van Braak. Não foi por acaso que o artista holandês escolheu esta data, o Dia de Todos-os-Santos, para organizar este memorial. É que a mostra evoca um seu avô, que, durante a II Guerra Mundial, foi feito prisioneiro de guerra pelo exército japonês, tendo sido sujeito a trabalhos forçados, nomeadamente na construção do caminho-de-ferro entre a Birmânia, actual Myanmar, e a Tailândia, uma empreitada na qual morreram mais de 100 mil pessoas.

A esses mortos, a todos aqueles que pereceram de uma forma infame, sepultados em valas comuns, a todos os nossos entes queridos, aqueles que já cá não estão, foi dedicado este trabalho, uma peça improvisada pelo Ensemble de Gamelão Casa da Música. Em "O Estúdio de Alberto Giacometti", Jean Genet escreve de forma enfática: "Nunca, nunca, a obra de arte se destina às novas gerações. Ela é oferenda ao inúmero povo dos mortos. Que a acolham, ou rejeitam. Mas os mortos de que falo nem vivos foram. Ou então esqueci-os."

O Ensemble de Gamelão Casa da Música foi criado em 2013, tendo a sua estreia ocorrido no início de 2014. Composto por elementos de várias áreas musicais, incluindo Jorge Queijo, Maria Mónica, Luís Bittencourt, Miguel Ramos, Emilio Trevisani e João Pais Filipe – os percussionistas que interpretaram "Em memória dos nossos antepassados –, tem no seu repertório composições originais. No concerto apresentado no Sismógrafo, foram utilizados instrumentos de lâminas artesanais inspirados nas escalas de um Gamelão javanês, cedidos pela Sonoscopia – Associação Cultural, e gongos artesanais construídos pelo músico e artista João Pais Filipe.

Then you are slowly forgotten. / You’re remembered only twice a year: / On you birthday and your death day. / That’s it. That’s all. That’s absolutely all. / Two times a year they think about you. / Two times a year those who loved you heave a sigh, / And they may sigh on the rare occasions someone mentions your name.

["If you want to kill yourself, why don’t you want to kill yourself?", Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), 26 April 1926]

On November the 1st, at 10pm, the Casa da Música Gamelan Ensemble performed "In memory of our ancestors", a musical moment produced for the occasion of "Too Many Shadows", an exhibition by Kevin van Braak. It was not by chance that the dutch artist chose this date, the All Saints' Day, to organize this memorial. In fact his work evokes his grandfather, which, during World War II, was made war prisoner by the Japanese army, having been subjected to heavy work, namely the construction of the railroad between Burma, current Myanmar, and Thailand, in which more than 100 thousand people died.

To those dead, to all those who ceased in an infamous manner, buried in mass graves, to all our beloved ones, who are no longer amongst us, this work was dedicated; an improvised piece by the Casa da Música Gamelan Ensemble. In "The Studio of Alberto Giacometti", Jean Genet writes in an emphatic manner: "Never, ever, is a work of art destined to the new generations. It is an offer to the numerous people of the dead that either embrace or reject it. But the dead of whom I speak did not even live. Or if so I have forgotten them."

The Casa da Música Gamelan Ensemble was created in 2013, having had their premiere in the beginning of 2014. Comprised by musicians of various musical backgrounds, including Jorge Queijo, Maria Mónica, Luís Bittencourt, Miguel Ramos, Emilio Trevisani e João Pais Filipe – the percussionists that interpreted "In memory of our ancestors" –, it has amongst its repertoire original compositions. In the concert presented at Sismógrafo, handcrafted instruments were used, keyboard percussion inspired in the scales of a Javanese Gamelan, conceded by Sonoscopia – Cultural Association, and handcrafted gongs made by the musician and artist João Pais Filipe.

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