Cascatas e Desabamentos, </br> Renato Ferrão
Cascatas e Desabamentos, </br> Renato Ferrão
Cascatas e Desabamentos, </br> Renato Ferrão
Cascatas e Desabamentos, </br> Renato Ferrão
Cascatas e Desabamentos, </br> Renato Ferrão
Cascatas e Desabamentos, </br> Renato Ferrão
Cascatas e Desabamentos, </br> Renato Ferrão
Cascatas e Desabamentos, </br> Renato Ferrão
Cascatas e Desabamentos, </br> Renato Ferrão
Cascatas e Desabamentos, </br> Renato Ferrão
Cascatas e Desabamentos, </br> Renato Ferrão

Em Agosto de 1946, Marcel Duchamp e Mary Reynolds alugaram um quarto no Hotel Bellevue, nas proximidades de Chexbres, na Suíça, e a 100 metros do "balcão do mundo". Se a visão de que então dispuseram é sublime - o designado pequeno lago do Lemano e os vinhedos de Lavaux -, terá sido o ruído de uma cascata, a Le Forestay, que terá agarrado a atenção do artista. Uma pequena caminhada e eis a queda de água, que desenha um trajecto em forma de vulva até ao momento de desabar nas encostas onde é plantado o Dézaley, seguindo depois o seu caminho até ao Lemano. Duchamp tirou então sete fotografias da paisagem, uma das quais usaria posteriormente no diorama "Étant donnés: 1º la chute d'eau 2º le gaz d'éclairage".

Esta pequena história completa-se com uma outra: a partir da varanda do Bellevue, Duchamp podia ver Tour-de-Peilz, a vila onde Gustav Courbet passou, no exílio, os últimos anos da sua vida. O artista que nos é mais contemporâneo manteve sempre uma posição paradoxal relativamente ao autor de "L'Origine du monde", se por um lado lhe criticava a sensualidade, a fisicalidade e a dimensão retiniana das suas obras, por outro não se pode deixar de assinalar a sua proximidade a Courbet no modo de tratar o erotismo em muitos dos seus actos criativos - essa relação pode ser sobretudo detectada ao nível do voyeurismo, que tanto um como o outro fizeram sempre questão de praticar.

A exposição "Cascatas e desabamentos", de Renato Ferrão, pode ser lida a partir deste pano de fundo. Formada por 11 dioramas, que também poderíamos designar por máquinas celibatárias, a mostra tem uma dupla origem exótica e oriental: a aquisição ao senhor Li Yu de uma velha cascata dos anos 1970, que fazia parte da decoração de um restaurante chinês na rua Pires de Lima, no Porto, e o encontro do artista com um recorte de uma pin-up macaense colada numa porta de um móvel - uma bancada de carpinteiro -, que se encontra nos depósito do Museu da Electricidade, em Lisboa. A colisão entre a imagem da modelo e a queda de água deu origem a uma série de reflexões não só acerca da dicotomia real/artificial, mas também e sobretudo sobre as formas de representação do desejo na arte actual.

Não será por acaso que as cascatas de que Renato Ferrão se apropriou têm origem em geografias exóticas, mas as quais estão cada vez mais povoadas pelo turismo e pelas obras públicas: numa das imagens observam-se veículos todo-o-terreno no topo de uma queda de água, enquanto que noutra se vê um estaleiro. Não é também fortuita a inclusão de dioramas de uma cascata congelada - o desejo adiado - ou de um vulcão - o desejo consumado. Entre a queda e a ascensão, ambas postas a nu, entre o paraíso e a catástrofe, esta exposição é uma maquinação, um complexo trabalho erguido peça-a-peça, manualmente. Há aqui uma reversão dos papéis: é o celibatário, o artista, que se despe perante nós, espectadores.

E se, em Duchamp, 150 watts iluminavam uma vulva sem pêlos, aqui são os leds que revelam a água, o fumo, a espuma, acentuando o erotismo de paisagens em movimento. Um outro tempo, uma outra poupança (de energia). A cascata congelada é a imagem que ecoa nas restantes desta exposição - não é a fotografia senão a solidificação de um instante? Os motores ajudam a criar, nos restantes objectos, a ilusão de um presente perpétuo, embora por vezes possa acontecer uma falha. É Jean-François Lyotard que nos diz: "Interpretar é fútil. Tanto quanto querer circunscrever o verdadeiro efeito do 'Grand Verre' e portanto o seu real conteúdo; o "Verre" é feito precisamente para não ter um efeito de verdade, nem mesmo alguns efeitos verdadeiros, segundo uma lógica mono- ou polivalente, senão efeitos descontrolados; ora não só o verdadeiro é o controlável, mas também o falso, considerando que Duchamp tem como objetivo um espaço para além dos valores de verdade: impoder ["impouvoir"] e potência.”

A exposição de Renato Ferrão é acompanhada por uma publicação (edição limitada a 100 exemplares). Este opúsculo resulta de uma recolha etnográfica de tradições, ritos e costumes associados ao elemento natural e jorrante que são as cascatas. O artista, que tudo isso testemunhou in loco, aglomerou esses contos exemplares na antologia agora editada.

In August 1946, Marcel Duchamp and Mary Reynolds rented a room at the Hotel Bellevue, near Chexbres, Switzerland, at 100 meters from the "counter of the world." If the view they saw was sublime – the designated Lemano small lake and the vineyards of Lavaux – it would have been the sound of a waterfall, the Le Forestay, that grabbed the attention of the artist. A short walk after, there was the cascade, drawing a path shaped like a vulva until it collapses on the slopes where the Dézaley is planted, following its way to Lemano. Duchamp then took seven photographs of the landscape, one of which he would later use in the diorama "Étant donnes: 1º la chute d'eau 2º le gaz d'éclairage".

This little story is completed with another: from the balcony of Bellevue, Duchamp could see Tour-de-Peilz, the village where Gustav Courbet spent, in exile, the last years of his life. The artist more contemporary to us, always maintained a paradoxical position regarding the author of "L' Origine du monde", if on one hand he criticized his sensuality, physicality and the retinal dimension of his works, on the other he could not help but to report his proximity to Courbet in the way he treats eroticism in many of his creative acts – that relation can be detected on the level of voyeurism that both of them always made a point to practice.

The exhibition “Cascades and Collapses” by Renato Ferrão, can be read from this background. Made up of 11 dioramas, which could also be called celibate machines, the show has a double exotic and oriental origin: the acquisition from Mr. Li Yu of an old cascade from the 1970s, which was part of the decoration of a chinese restaurant on Pires de Lima street, Porto, and the encounter of the artist with a cutout of a macanese pin-up glued to a door of a furniture – a carpenter's table – at the storage room of the Electricity Museum in Lisbon. The collision between the image of the model and the waterfall has led to a series of reflections not only about the real/artificial dichotomy, but also and especially on the ways of representation of desire in current art.

Is it not by chance that the cascades that Renato Ferrão has appropriated come from exotic geographies, which are increasingly populated by tourism and public works: in one of the images we see all-terrain vehicles on top of a waterfall, while in another there is a construction site. It is also not fortuitous the inclusion of dioramas of a frozen waterfall – the postponed desire –, or of a volcano – the consummated desire. Between the fall and rise, both laid bare, between heaven and catastrophe, this exhibition is a machinery, a complex work built piece-by-piece, manually. There is a reversal of roles: it is the celibate, the artist, who undresses before us, spectators.

If in Duchamp 150 watts illuminated a hairless vulva, here is LEDs that indicate the water, the smoke, the foam, emphasising the eroticism of landscapes in motion. Another time, another saving (of energy). The frozen cascade is the one that echoes in the remaining images of this exhibition – isn’t photography nothing but the freezing of an instant? The engines help creating in the other objects the illusion of a perpetual present, although sometimes a failure might happen. It is Jean-Francois Lyotard who tells us: “Interpreting is futile. As far as wanting to limit the true effect of the 'Grand Verre', and thus the actual content; "Verre" is made precisely for not having a real effect, not even some real effects, according to a mono- or polyvalent logic, but rather uncontrolled effects: now, not only the real is the controllable, but also the false, considering that Duchamp aims at a space beyond the truth values: unpower ["impouvoir "] and power."

The exhibition of Renato Ferrão is accompanied by a publication (limited edition of 100 copies). This booklet is the result of an ethnographic collection of traditions, rites and customs associated with the natural and gushing elements of the cascades. The artist, who witnessed all this in loco, reunited these exemplary tales in this edited anthology.

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