Por i, <br>Fernando José Pereira

Domingo, pelas 17h, acontece a projecção do filme “Por i”, de Fernando José Pereira (Porto, 1961), uma obra onde se coloca em questão a forma como é preservada a arquitectura moderna portuguesa, a partir do exemplo dos edifícios associados à construção da barragem do Picote, situada no concelho de Miranda do Douro, distrito de Bragança. Inaugurada em 1958, Barrocal do Douro, a aldeia contígua àquela infraestrutura, foi desenhada por três jovens arquitectos recém-formados na Escola de Belas-Artes do Porto (ESBAP) - Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Ramos, que idealizaram um aglomerado para acolher quatro mil pessoas.

Como escreve o artista: “Por i” é um filme sobre a utopia de três arquitectos que, nos anos 50 do séc. passado, edificaram uma cidade moderna (com forte influências de Corbusier) no meio do nada. Localizada na fronteira que o rio Douro faz com Espanha, no âmbito da construção de uma barragem, esta foi uma cidade de utopias várias que se manteve escondida até há pouco. Hoje, depois de “descoberta”, já não é espaço de utopia é, antes, um lugar distópico. Envolvida num processo de privatização e de recuperação o que hoje ali vemos é uma condição absolutamente paradoxal: a parte recuperada está morta pois não tem qualquer utilização, a parte não recuperada, em profunda deteriorização, quase ruína, está cheia de vida (a vida própria que surge do abandono). O filme é uma chamada de atenção. Um gesto que quer ser, na sua forma peculiar, utopia, outra vez. Um filme que questiona a ideia contemporânea de Tempo e de Presente aqui reflectida na impossibilidade espacial do lugar em confronto directo com a desmemorização hoje presente transversalmente na sociedade. Fá-lo através do recurso a um tempo alongado e lento (contemplativo?) que possibilita a reflexão. É que não existe arte sem reflexão e não existe reflexão sem tempo. “Por i”, talvez seja uma possibilidade de convocar, de novo, a utopia como alternativa ao pragmatismo...talvez.

NOTA: “por i” é uma palavra que na língua autónoma desta região de Portugal (o mirandês) significa talvez. Uma enorme coincidência coloca a mesma palavra em duas línguas tão distantes e com significados distintos: por i e Pori. É um bom sinal...talvez!

*A seguir à projecção ha conversa com o artista, Rui Manuel Vieira e Óscar Faria.

Fernando José Pereira vive e trabalha no Porto. Possui a Licenciatura em Artes Plásticas na Universidade de Porto e o Doutoramento em Belas Artes na Universidad de Vigo (com a tese: Arte contemporânea. A utopia de uma existência exilada. Os desenvolvimentos numéricos como nova (im)posibilidade aporética, 2001). Recebeu várias bolsas de estudo e investigação da Fundação Calouste Gulbenkian (1985/1989, 1997/98, 1999/2001). É co-director do projecto virose-org e investigador no Instituto de Investigação em Arte e Design. Expõe regularmente em museus, galerias e outros espaços, sendo as mais recentes participações: “The 10th Berlin International Directors Lounge [DLX]”, Berlim, Alemanha. (2014); “Todo lo que pueda desertar | Anything that might desert”, Galeria Adhoc, Vigo, Espanha; “Region 0. The Latino Video Art Festival of New York”. King Juan Carlos I of Spain Center at NYU, New York, USA (2013); “Colección: adquisiciones e incorporaciones recientes”, Centro Galego de Arte Contemporánea, Santiago de Compostela, Espanha, (2013); "Colecção de Serralves: Obras Recentes”, Museu de Serralves, Porto, Portugal, (2013).Tem obras nas seguintes colecções públicas: Fundação de Serralves, Instituto de Arte Contemporánea, Centro Galego de Arte Contemporânea (CGAC) , Museu do Neo-Realismo, Fundação Calouste Gulbenkian, Museu da Cidade, Lisboa, Colecção Fundação PLMJ, Fundação Ilídio Pinho, Universidade do Porto. É autor de diversos textos publicados, sendo os mais recentes, “Projecto de expansão de um tripé para terminar em bico”, in Outra vez não – Eduardo Batarda, Fundação de Serralves, Porto, 2012; “A aragem da Utopia”, in História da Arte – ensaios contemporâneos, Brasil, 2011; “News of the the Desolation – Notes on Art and real”, in The International Journal of The Arts in Society, 2010, Illinois, USA. Participa com comunicações em congressos e conferências, sendo as mais recentes: na Finnish Academy of Arts em Helsínquia, 2014; no “Skaftfell Center for Visual Art”, Seyðisfjörður, Islândia, 2012 e nas “Looking North conferences”, Newcastle, UK, 2010.

Sunday, at 5pm, is projected the film "Por i" by Fernando José Pereira (Porto, 1961), a work that calls into question the way modern Portuguese architecture is preserved, taking the example of the buildings associated with the construction of the Picote dam, located in the municipality of Miranda do Douro, Bragança district. Inaugurated in 1958, Barrocal do Douro, the village adjoining that infrastructure, was designed by three young architects recently graduated from the School of Fine Arts of Porto (ESBAP) - Archer de Carvalho, Nunes de Almeida and Rogério Ramos, who devised a cluster to welcome four thousand people.

As the artist writes: “Por i” is a film about the utopia of three architects who, in the 50s of the past century, built a modern city away from any trace of civilization. On the border with Spain, this city of several utopias remained hidden until recently. Today, after the "discovery" is no longer a space of utopia is, rather, a dystopian place. Involved in a privatization and recovery process, what is possible to see there today is an absolutely paradoxical condition: the recovered part is dead because it has no use, the unrecovered part in deep deterioration, almost ruin, is full of life (the kind of life that arise from the abandonment). The film is a wake-up call. A gesture that wants to be in his peculiar way, utopia, again. A film that questions the contemporary idea of Time and Present here reflected in the spatial impossibility of the place in direct confrontation with the forgetfulness now present across society. It does so through the use of an elongated, slow time (contemplative?) that enables reflection. Because there is no art without reflection as there's no reflection without time. “Por i” might be a possibility of convening again utopia as an alternative to pragmatism ... maybe.

NOTE: "Por i" is a word that means maybe in Mirandese (autonomous language of Portugal's region where the film action is located).

*Next to the projection there’s a talk between the artist, Rui Manuel Vieira and Óscar Faria.

Fernando José Pereira lives and works in Porto. He holds a Degree in Fine Arts from the University of Porto and a PhD in Fine Arts at the University of Vigo (with the thesis: Contemporary art. The utopia of an exiled existence. The numerical developments as a new aporetic (im)possibility, 2001). He received several research scholarships from the Calouste Gulbenkian Foundation (1985/1989, 1997/98, 1999/2001). He is co-director of the virose.org project and researcher at the Institute of Research in Art and Design. He regularly exhibits in museums, galleries and other venues, the most recent being: "The 10th Berlin International Directors Lounge [DLX]", Berlin, Germany. (2014); “Todo lo que pueda desertar | Anything that might desert”,, Adhoc Gallery, Vigo, Spain; "Region 0. The Latino Video Art Festival of New York". King Juan Carlos of Spain Center at NYU, New York, USA (2013); “Colección: adquisiciones e incorporaciones recientes”, Galician Center for Contemporary Art, Santiago de Compostela, Spain, (2013); "Serralves Collection: Recent Works", Serralves Museum, Porto, Portugal, (2013). He has also works in the following public collections: Serralves Foundation, Contemporary Art Institute, Centro Galego de Arte Contemporânea (CGAC) Neo-Realism Museum, Calouste Gulbenkian Foundation, Lisbon City Museum, PLMJ Foundation Collection, Ilídio Pinho Foundation, University of Porto. He is the author of several published texts, the most recent being “Projecto de expansão de um tripé para terminar em bico”, in Outra vez não - Eduardo Batarda, Foundation of Serralves, Porto, 2012; “A aragem da Utopia”, in History of Art - contemporary essays, Brazil, 2011; "News of the Desolation - Notes on Art and real ", in The International Journal of The Arts in Society, 2010, Illinois, USA. He participates in congresses and conferences, most recently at the Finnish Academy of Arts in Helsinki, 2014; at the “Skaftfell Center for Visual Art”, Seyðisfjörður, Iceland, 2012 and in "Looking North conferences", Newcastle, UK, 2010.

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Entrada livre / free admission