Obra Escrita 1, João César Monteiro por/by Vitor Silva Tavares
Obra Escrita 1, João César Monteiro por/by Vitor Silva Tavares
Obra Escrita 1, João César Monteiro por/by Vitor Silva Tavares
Obra Escrita 1, João César Monteiro por/by Vitor Silva Tavares

Em 1974, no prefácio a “Morituri te salutant”, essa sentença latina que se pode traduzir por “os que vão morrer saúdam-te”, Vitor Silva Tavares escreve: “Não será pois de todo descabido ver-se nas palavras do César como que um teatro, assumidamente literário, do que no cinema dele já há.” Desse modo pode afirma-se que o cinema de João César Monteiro* é a continuação dos seus escritos por outros meios. E vice-versa. Há uma clara complementaridade entre ambas as áreas criativas usadas por este autor, que já em 1959 publicava a suas expensas o pequeno livro de poemas “corpo submerso”, o qual tem intróito do próprio: “(...) não quero morrer agora sem ter a consciência absoluta do que é um poema. Não quero morrer agora sem ter a consciência absoluta de muitas outras coisas. Não quero morrer agora até porque não quero com ou sem razões morrer agora.”

Muitos outros textos e filmes foi César Monteiro criando, mas esse livro incial, fabricado por um “APRENDIZ-DE-POETA”, continha já os elementos que viriam a marcar a obra futura do cineasta, onde a herança surrealista, sobretudo a heterodoxa – Bataille e Artaud –, se misturava explosivamente e com malicioso sorriso, com a poesia erótico-satírica portuguesa, escatologia de Sade e ainda e sem surpresa com os pensamentos de Nietzche, Deleuze e Agamben. “Filosofia na Alcova” ficou por realizar, mas as ideias ficaram publicamente registadas no “Relatório Confidencial”, incluído em “Uma Semana Noutra Cidade”, publicado pela &etc em 1999: “Tereis a benevolência de me indultar, seja dos meus erros, seja da minha rude franqueza, mas tenho a convicção de que, quando se fazem filmes, os arrependimentos tardios não servem nada nem ninguém. Não servem sobretudo ao filme e este, a ser, será o de um incorrigível impenitente.”

Num encontro organizado em colaboração com as livrarias Letra Livre, de Lisboa, e Utopia, do Porto, o Sismógrafo propõe uma conversa com Vitor Silva Tavares, editor da &etc, a propósito do lançamento recente do primeiro volume da “Obra escrita”, de João César Monteiro, cuja edição ele próprio se encontra a coordenar. A coincidência entre esta apresentação e a estreia do mais recente filme de Jean-Luc Godard, intitulado “Adeus à linguagem”, assume uma dimensão inesperada, pois é esse território, o do texto passado a imagens em movimento que ambos os autores praticaram, praticam, incessantemente, numa tentativa de aproximação à origem do mundo. Como se pode ler no argumento de “Adeus à linguagem”, um dos personagens diz: “Pois bem, você é jovem/ Está na plenitude da sua beleza, da sua força,/ Experimente portanto.../ Eu, eu vou morrer/ Adeus/ Adeus/ Não quero abandonar-vos/ Não posso receber-vos de novo/ Não quero nada, nada/ Tenho os joelhos no chão/ E os rins quebrados” – a inspiração de Godard provém da amorosa troca epistolar entre George Sand e Alfred de Musset. Autores românticos, JCM e JLG. Ambos comprometidos com a linguagem que aos poucos se retira de cena - Pasolini seria o terceiro vértice desta trindade, que se une pela busca da pobreza das palavras que se opõem ao espectáculo de um mundo em decomposição.

O prefácio de Vítor Silva Tavares para “Morituri te Salutant” intitulava-se "O César tem uma grande telha.” E do primeiro livro de João César Monteiro, edição de autor, escolhemos este verso do poema “Génesis”:

“Gemer será o nosso último festim”

*João César Monteiro nasceu na Figueira da Foz em 1939 e morreu em Lisboa em 2003. É autor de uma das obras mais relevantes do cinema português.

In 1974, in the preface for “Morituri te salutant”, this latin sentence that can translate to “the ones about to die salute you”, Vitor Silva Tavares writes: “It will not be at all improper to see in the words of César that of a theatre, admittedly literary, that already exists in his cinema.” In this way we can affirm that João César Monteiro’s* films are a continuation of his writings by other means. And vice-versa. There is a clear complementarity between both these creative areas used by the author, which in 1959 was already publishing by his own means a small book of poems "corpo submerso" [submerse body], which contains his words “(…) I do not want to die now without having the absolute consciousness of what a poem is. I do not want to die now without having the absolute consciousness of many other things. I do not want to die now even because I don’t want, with or without reasons, to die now.”

Many other texts and films did César Monteiro create, but this initial book, manufactured by a “POET-APPRENTICE”, had already the elements that would mark the filmmaker’s future work, where the surrealist heritage, especially the heterodox – Bataille and Artaud –, was mixing explosively and with a malicious smile, with the erotic-satiric Portuguese poetry, eschatological of Sade and still and with no surprise with the thoughts of Nietzche, Deleuze and Agamben. "Filosofia da Alcova" [Philosophy in the Alcove] was left to realize, but its ideas became publicly registered in "Relatório Confidencial" [Confidential Report], included in "Uma Semana Noutra Cidade" [A Week in Another City], published by &etc in 1999. “You shall have the benevolence to pardon me, be it of my mistakes, or my rude sincerity, but I have the conviction that, when films are made, the belayed regrets no not serve anything or anyone. They do not serve above all to the film, and this, be it, would be of an un-rectifiable impenitent.”

In an encounter organized in collaboration with the book stores Letra Livre, from Lisbon, and Utopia, from Porto, Sismógrafo proposes a conversation with Vitor Silva Tavares, editor of &etc’s, in relation to the recent release of the first volume of the “written work”, by João César Monteiro, in which he himself is coordinating. The coincidence between this presentation and the premiere of Jean-Luc Godard’s latest film, entitled “Goodbye to Language”, assumes an unexpected dimension, for it is this territory, of the text that becomes moving image, that both the authors exercised and still do exercise, incessantly, in an attempt of approximation to the world’s origins. As can be read in the script of “Goodbye to Language”, one of the characters declares: “So be it, you are young/ in the plenitude of your beauty, of your strength,/ Go on and experiment…/ I, I’m going to die/ Goodbye/ Goodbye/ I do not want to leave you/ I cannot embrace you again/ I want nothing, nothing/ I have my knees on the floor/ and my kidneys broken” – Godard’s inspiration comes from the affectionate epistolary exchange between George Sand and Alfred de Musset. Romantic authors, JCM and JLG. Both compromised with the language that slowly fades to the backdrop – Pasolini would be the third vertex of this trinity, that unites them in search of the poverty of words that oppose themselves to the spectacle of a world in decay.

Vitor Silva Tavares's preface for “Morituri te Salutant” was entitled “César is moody”. And from the first book of João César Monteiro, author’s edition, we chose this verse from the poem “Genesis”:

“Moaning will be our last feast”

*João César Monteiro was born in Figueira da Foz in 1939 and died in Lisbon in 2003. He is the author of one of the most relevant works in Portuguese cinema.

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